sexta-feira, 13 de maio de 2016

Já falou com teu Preto Velho, hoje?




Por um mundo com mais Maria Conga e menos Princesa Isabel!


Dia 13 de maio comemoramos, no calendário civil, o Dia da Abolição da Escravatura, por meio da Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel.

Dentro do calendário da Umbanda, criou-se, neste dia, a comemoração do Dia dos Pretos Velhos e Pretas Velhas, entidades da Umbanda, representadas por espíritos de negros e negras, escravos e escravas de antigamente, na sua maioria idosos e idosas, líderes espirituais de seus povos, ou de localidades, que atingiram um grau de elevação espiritual, e retornam ao Aiê (Terra) para ajudar os necessitados.

Sua incorporação nos médiuns se dão de forma mais tranquila, costumam chegar e andar abaixadinhos, como velhinhos que são, apoiados em bengalas. Ficam sentados em banquinhos, benzem, dão passes, usam fumo de rolo, palheiros, cachimbos, usam ervas, arruda, manjericão, defumações, receitam banhos e poções, fazem simpatias e patuás.


Mas, creio que tudo isto todo mundo já sabe, né? 


Mas quando falo em Preto Velho, não é só da enorme capacidade curativa que eles tem, do enorme conhecimento de ervas, ou das capacidades de benzer melhor que qualquer mandingueiro de plantão. 

Eu quero falar é de velhice, de antepassado, de ancestral.


De velhice? De antepassado, tipo, Samhain? 


Siiim! 

Estes dias vi um vídeo tendencioso, que dizia que Preto Velho era uma entidade atrasada, presa ao passado, ao vitimismo. 


Não é verdade!


Mas, muito embora na Umbanda saibamos que Preto Velho significa, na verdade, entidade ancestral e antepassados (sabemos?), acho que acabamos por incorporar esta questão do atraso, do vitimismo, nas nossas cabeças. Acho isto porque, por mais que eu veja os Umbandistas dizendo que Preto Velho é sabedoria, Preto Velho é quem sabe das coisas, é no Preto Velho que está todo fundamento da Umbanda, e outras coisas... me desculpem mas, só vejo sessão de Preto Velho vazia, com meia dúzia de médium e consulentes... 

Porque? 

Olha, podem me dizer que estou sendo vitimista... mas, numa Umbanda “branca” toda sincrética e trabalhada nos santos católicos europeus, de olhinho azul e pele clara...

...a sessão do “preto” é, literalmente, a senzala, né?


Ih, começou o mimimi...

Que nada... deixa este assunto para outra hora...

Sabe o Freud, o Jung, e aqueles caras branquinhos e europeus, que falam que tudo é culpa da tua mãe ou da tua falta de sexo? Pois é... Preto Velho te ajuda a resolver tudo isto...

Porque Preto Velho, meu irmão, é tua entidade ancestral. É a representação do teu pai e tua mãe cósmica, tua avó interior, aquela parte velha em ti que representa tua mãe, teu passado, teu pai, o que tu escondes, o que tu não queres ver...




E se tu não quiseres ver, não vais ver mesmo... e o Freud já dizia que a cura só está no enfrentamento destes fantasmas (ancestrais?) internos e obscuros de dentro da tua alma...

Preto Velho é povo de alma, também... é feitiço, é mandinga, é fechamento de corpo, costurado de enfermidade, mandinga de amor, e ...

Ah, mas tu vais na PombaGira prá isto, né? 

Pois é... não é a mesma coisa!

Por que o Preto Velho tu queres esconder? Por que te abaixar até ele (ou para incorporar com ele) é tão difícil? Porque é muito difícil nos dobrarmos para as realidades profundas da nossa Alma e do nosso passado.

E se tua luta diária por encontrar-se com a Deusa, com a Mãe Cósmica, com o Sagrado Feminino tiver uma brecha para encaixar a Mãe Preta... te garanto: tu tens muito a ganhar!


Conhece Mãe Maria Conga?

Uma das mais famosas Pretas Velhas da Umbanda, Mãe Maria Conga é uma das Vovós de Umbanda que tem origem histórica confirmada.


Esta foto não é de uma velha!

E não é! Eu não falei que era ancestralidade, antepassado? Nem sempre nosso antepassado era velho... é velho porque é passado. 

Maria Conga nasceu na África em 1792. Foi trazida, escravizada, para a Bahia, em 1804, e vivia sob as ordens de um alemão no Porto de Piedade.




Quem é religioso no Sul do Brasil, e se diz Cabindeiro, deve dar muita atenção à Maria Conga, uma vez que Cabinda é uma das províncias de Angola que faz divisa geográfica com o Congo.




Com 24 anos, vendida novamente, para o Conde alemão Ferdinand Von Scoiler, Maria Conga ganhou a liberdade, e dez anos depois, fundou o Quilombo de Magé, no Rio de Janeiro.


Maria Conga nunca foi pega. O Quilombo de Magé foi um dos poucos, 
senão o único, liderado por uma mulher. 


Maria Conga morreu de velha, em 05 de outubro de 1895, e o quilombo é fonte viva de história de resistência desta mulher sensacional. Cabe ressaltar que os outros quilombos, liderados por muitos homens, foram destruídos e os líderes capturados. 

Maria Conga morreu livre, aos 103 anos de idade, após ver seu povo ser libertado.

Falado tudo isto, eu pergunto: será que, com uma história desta, esta Preto Velha é só uma vovozinha sentada, fumando cachimbo na sessão sonolenta de Preto Velho?

Se tu tens um Preto Velho por perto, é hora de ouvir suas histórias. Suas histórias estão lá dentro, no passado, na caixinha da alma, no subconsciente.

São histórias de luta, de resistência, de feminismo, de nobreza, e tem muito a nos dizer nos dias de hoje, onde parece que a tortura e o cerceamento de direitos está na iminência de tornar-se algo palpável.

Conversa com teu Preto Velho. Ele vai te dizer muito sobre teu passado e sobre como aplicar isto na tua vida.

Vai te livrar de fantasmas, vai benzer teus medos. Vai curar tua dor e tua ignorância de, depois de tantas façanhas no passado, tu ainda querer te comportar como a Princesa Isabel e não como a Mãe Maria Conga!

2 comentários:

  1. Nossaaaaaa, matéria maravilhosa...Acho que todo umbandista deveria ler e absorver isso
    Parabéns!!!

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  2. Amei... Linda matéria, Parabéns.
    Amo minha vozinha Benedita!

    Adorei as Almas!!

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