domingo, 29 de maio de 2016

O período pós-carnaval ou quaresma cristã?




É preciso que se fale deste tema, principalmente, nesta época, em que falam de “Quaresma” ou período de cultuar mais os Exús.

Primeiro, lanço mão do fato de que não cultuo a Quaresma: esta é católica, cristã, e apesar de Umbandista, não me considero cristã. 

Sou Afro-Umbandista, cultuo Orixás e uma tradição milenar anterior ao cristianismo, que veio para o Brasil por meio dos escravos africanos e cultuo, também, a Umbanda, religião brasileira, que reúne, em seu conteúdo, rasgos da tradição africanista, misturados aos ensinamentos dos índios, caboclos, espíritos de escravos. Apesar de ter nascido num centro espírita, religião cristã, a Umbanda não precisa, necessariamente, ser considerada e fundamentada numa doutrina cristã. Muito pelo contrário! A sabedoria dos Pretos-Velhos, antigos escravos ou não, remonta a uma época bem mais antiga a do Cristo! Reconhecemos, na Umbanda, o Cristo, como nas inúmeras religiões do mundo, como um grande Profeta e Pai, sincretizamos Jesus na figura paterna de Oxalá, acreditando seja o mesmo um enviado deste, ou um filho de Oxalá.



De outra banda, a Umbanda agrega milhares de ensinamentos filosóficos, teológicos e práticos que nos aponta para um período mais nebuloso no nosso calendário, devido ao Carnaval ser um período de extravasamento, bebedeira, perda de certos controles, que não precisamos sequer descrever.

Devido a isto, nada mais certo do que colocar nossas entidades da Rua, o Povo do Rua, Povo de Exú, a nos prestar seus serviços mais fiéis, que é nossa guarda nas ruas e encruzilhadas da vida, nos guiar na vida mais mundana e perigosa.

De outra feita, a onda que se instalou com o culto ao Exú, levou milhares e milhares de adeptos a utilizar o período pós-carnaval como o período de cortes, assentamentos, festas, giras e demais preceitos característicos destas entidades. 

É quaresma? Não. A convenção criou um rito? Criou! Virou tradição? Virou! Então, não há como se negar que o período depois do carnaval, não seja a celebração de Exú. Não se contesta mais isto. Mas, temos sim, que tirar da nossa cabeça que isto é Quaresma, que é relativo ao cristianismo, ou que nossos Orixás do Batuque ou Caboclos da Umbanda foram prá guerra por Jesus Cristo e que por isto o Quarto de Santo e Congá ficam fechados! Isto é um erro e nos diminui como afro-religiosos!

Existe sim, no Batuque, um fundamento que diz que existe uma guerra astral anual, relativa às regências do ano, onde os Orixás se reúnem no astral para passar a limpo, por assim dizer, as entregas de ano, do Orixá anterior, para o Orixá regente... Como um período de transição de governo, nos dois primeiros meses do ano, o que fecha com o período dito da quaresma católica.

Neste período, convencionou-se que os Orixás estariam lutando e debatendo por energias para a terra e para seus filhos, estariam numa luta astral pelos humanos, utilizando suas características divinas de intervenção, prestando contas, debatendo, criando soluções.
Diz-se que a Terra, neste período, fica sob os cuidados de Exú e que por isto, as pessoas caem na folia e se criam tantas desmazelas...

Como a maioria das casas do sul cultuam Nação e Umbanda, se criou a festança dos Exús de Quimbanda que começa no Carnaval! 

Costuma-se dizer que ao final do período, que o calendário cristão tem como Semana Santa, cujo ápice é a Páscoa, os Orixás retornam aos seus domínios terrenos, com as boas novas e devem ser recebidos com suas oferendas, cortes, toques, doces, etc.

Mabon

Eu aprendi assim. Mas, nunca aprendi que este período é a Quaresma Cristã. Este período, que para os cristãos é a chegada da Páscoa, existe em várias religiões. Os Wiccanos vão festejar o Mabon no hemisfério Sul, perto da Páscoa, também, com ritos parecidos... Os Judeus também, os Muçulmanos também. São quase na mesma época, e dizem coisas parecidas. E sabemos que o inconsciente coletivo nos mostra os ritos diferentes, em várias tribos, parecidos e com mesmo significado por um único motivo: seja Allá ou Oxalá: a Divindade existe! AXÉ!

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